Quanto vale a vida perdida sem razão?
A frase que dá título a este texto é de uma música que ouvi um sem-fim de vezes na adolescência. Lembro bem a enxurrada de sentimentos, afetos, lembranças, noções e reflexões que ela me despertou — era como se eu fosse lançado a outra dimensão, como se ela me questionasse a queima-roupa, sendo eu apenas um garoto: do que vale uma vida se ela não tem significado? E quanto se perderia se eu não tivesse razões para vivê-la plenamente? Hoje, décadas depois dessas vivências, transformado por inúmeras letras, sons, ritmos e pensamentos, volto a elas para dar significado ao mundo — um mundo que vai se tornando desbotado nestes tempos sombrios.
Não, este texto não será sobre as músicas, porque apesar de amá-las, elas representavam para mim instrumentos para que eu enxergasse o mundo, para que eu pudesse torná-lo mais meu, para que eu vivesse esses milhões de vidas em uma única. Teria sido uma experiência magnífica se eu tivesse ficado apenas aproveitando cada uma dessas canções pelos replays que lhes dei vida afora, dia após dia. Mas não foi só isso. Lembro que, na faculdade, tivemos uma discussão sobre músicas que marcaram minha geração e, depois de explicar o que sentia pelas letras da Legião Urbana, um amigo conseguiu definir perfeitamente o que eu apenas intuía: essas letras nos dizem muito mais do que as letras estrangeiras, porque as entendemos.
Com esse preâmbulo, podemos entrar no assunto do texto. Talvez você não entenda bem para que serve a instrução — ou seja, para que aprender um conjunto imenso de "coisas" para vivermos no mundo. Poderíamos dizer que quando aprendemos a medir quantidades com precisão em artes ou matemática, física ou química, também estamos sendo preparados para fazer pratos mais refinados. Que o mesmo treino diário para acompanhar uma explicação é o que nos permite, depois, dirigir um automóvel com atenção. Que a prática esportiva que melhora o sono também afia a coordenação para emendar um fio elétrico ou cortar algo sem se machucar. São exemplos evidentes, imediatos e simplistas — embora todos sejam verdadeiros. Mas podemos ir além. Foi exatamente isso que aprendi ao ler Fernão Capelo Gaivota na adolescência, por indicação de uma professora de português.
Conforme estudamos, começamos a juntar coisas: letras, sons, palavras, elementos — dos mais simples aos mais complexos, das informações mais óbvias e elementares às mais refinadas e surpreendentemente conectadas. No campo da educação, é comum encontrar a ideia de que, ao sermos ensinados, passamos a ser, de fato, humanos — pois recebemos uma espécie de herança cultural ancestral, e para tomar posse dela basta ser inserido nesse conjunto de coisas que nos cercam. Como vim de uma família de imigrantes, foi interessante, depois de aprender isso, observar pessoas mais velhas experimentando esse processo: havia estranhamentos, espantos e raciocínios que são muito difíceis para crianças, mas mais acessíveis a jovens adultos que já acumularam camadas suficientes de mundo.
Algumas das ferramentas de que mais gostei para me apropriar dessa herança foram as palavras e as músicas. Diga se é possível ouvir apenas uma vez e captar toda a riqueza desta frase: "Luz… e sentido… e palavra, palavra é que o coração não pensa". Ou desta outra, com palavras similares e significados distintos: "A novidade, que vem do Brejo da Cruz… eram crianças e comiam luz". E "Rosa de Hiroshima"? Como deixar de citar Anunciação: "Tu vens, tu vens, eu já escuto teus sinais". Paro por aqui — não por falta de exemplos, mas porque a herança cultural só cresce, só se reelabora, só se multiplica com cada um de nós relacionando-se com ela.
É exatamente isso que me "mói o fígado", como diria um conhecido filósofo da atualidade. Quando desprezam a escola, os professores, o aprendizado, e supõem que apenas um ramo do conhecimento bastaria para compreender o que cantaram Piaf, Elis Regina, Simonal, Alceu Valença, Luiz Gonzaga — isso me causa desespero. Quando se reduz a humanidade inteira, com todas as suas experiências, mazelas e sofrimentos, apenas ao que eu entendo e sei, empobrecemos a todos. E não ver isso é sinal grave de não compreender o sentido da escola, da aprendizagem e do trabalho do professor. Imagine quanto deveria receber de salário alguém encarregado de nos preparar para receber essa herança.
Quanto vale a tua vida? Quanto vale a tua existência? Quanto vale ter um mínimo de noção do que fazer quando algo nos acontece? Quanto vale garantir que todos saibam que, em caso de emergência, existe um número a ligar? Quanto vale um médico saber exatamente onde operar? E, depois que ele sai da sala cirúrgica, quanto vale ele poder ouvir uma música, ler um livro, assistir a um filme — ou simplesmente conversar com pessoas que o entendam? Se ele precisar de um psicólogo, de onde veio esse profissional? De onde veio essa compreensão?
Entendo que nosso sistema de ensino tem falhas graves — sou um crítico mordaz delas desde sempre. Mas sei também que o problema não é o aprendizado, o conhecimento ou a sabedoria advinda das práticas escolares. Hoje parece que a escola e seu principal agente, o professor, estão desvinculados de todas as conquistas sociais, de todas as virtudes que alcançamos. Novos médicos, psicólogos, enfermeiros, cozinheiros, músicos — tudo o que frutifica vira mérito exclusivamente individual. Assim, o ato de ensinar tornou-se responsável pelo fracasso de um sistema que, na verdade, foi abandonado muito antes: pelo sucateamento do investimento, pela exigência crescente sem o correspondente cuidado, pela estrutura deficitária tratada como mero efeito colateral da universalização da educação — meta perseguida por décadas e hoje abandonada a troco de nada.
Por isso pergunto: a quem você deve o fato de compreender tudo o que está neste texto? De ser quem você é? Sei que jamais responderá em voz alta: "graças a alguns professores." Mas ambos sabemos, incomodamente, que foi exatamente por isso — e que negar isso não apaga a dívida. Ela segue lá, silenciosa e impagável.
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