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quarta-feira, 27 de maio de 2026
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Quanto vale a vida perdida sem razão?
Quanto vale a vida perdida sem razão?
A frase que dá título a este texto é de uma música que ouvi um sem-fim de vezes na adolescência. Lembro bem a enxurrada de sentimentos, afetos, lembranças, noções e reflexões que ela me despertou — era como se eu fosse lançado a outra dimensão, como se ela me questionasse a queima-roupa, sendo eu apenas um garoto: do que vale uma vida se ela não tem significado? E quanto se perderia se eu não tivesse razões para vivê-la plenamente? Hoje, décadas depois dessas vivências, transformado por inúmeras letras, sons, ritmos e pensamentos, volto a elas para dar significado ao mundo — um mundo que vai se tornando desbotado nestes tempos sombrios.
Não, este texto não será sobre as músicas, porque apesar de amá-las, elas representavam para mim instrumentos para que eu enxergasse o mundo, para que eu pudesse torná-lo mais meu, para que eu vivesse esses milhões de vidas em uma única. Teria sido uma experiência magnífica se eu tivesse ficado apenas aproveitando cada uma dessas canções pelos replays que lhes dei vida afora, dia após dia. Mas não foi só isso. Lembro que, na faculdade, tivemos uma discussão sobre músicas que marcaram minha geração e, depois de explicar o que sentia pelas letras da Legião Urbana, um amigo conseguiu definir perfeitamente o que eu apenas intuía: essas letras nos dizem muito mais do que as letras estrangeiras, porque as entendemos.
Com esse preâmbulo, podemos entrar no assunto do texto. Talvez você não entenda bem para que serve a instrução — ou seja, para que aprender um conjunto imenso de "coisas" para vivermos no mundo. Poderíamos dizer que quando aprendemos a medir quantidades com precisão em artes ou matemática, física ou química, também estamos sendo preparados para fazer pratos mais refinados. Que o mesmo treino diário para acompanhar uma explicação é o que nos permite, depois, dirigir um automóvel com atenção. Que a prática esportiva que melhora o sono também afia a coordenação para emendar um fio elétrico ou cortar algo sem se machucar. São exemplos evidentes, imediatos e simplistas — embora todos sejam verdadeiros. Mas podemos ir além. Foi exatamente isso que aprendi ao ler Fernão Capelo Gaivota na adolescência, por indicação de uma professora de português.
Conforme estudamos, começamos a juntar coisas: letras, sons, palavras, elementos — dos mais simples aos mais complexos, das informações mais óbvias e elementares às mais refinadas e surpreendentemente conectadas. No campo da educação, é comum encontrar a ideia de que, ao sermos ensinados, passamos a ser, de fato, humanos — pois recebemos uma espécie de herança cultural ancestral, e para tomar posse dela basta ser inserido nesse conjunto de coisas que nos cercam. Como vim de uma família de imigrantes, foi interessante, depois de aprender isso, observar pessoas mais velhas experimentando esse processo: havia estranhamentos, espantos e raciocínios que são muito difíceis para crianças, mas mais acessíveis a jovens adultos que já acumularam camadas suficientes de mundo.
Algumas das ferramentas de que mais gostei para me apropriar dessa herança foram as palavras e as músicas. Diga se é possível ouvir apenas uma vez e captar toda a riqueza desta frase: "Luz… e sentido… e palavra, palavra é que o coração não pensa". Ou desta outra, com palavras similares e significados distintos: "A novidade, que vem do Brejo da Cruz… eram crianças e comiam luz". E "Rosa de Hiroshima"? Como deixar de citar Anunciação: "Tu vens, tu vens, eu já escuto teus sinais". Paro por aqui — não por falta de exemplos, mas porque a herança cultural só cresce, só se reelabora, só se multiplica com cada um de nós relacionando-se com ela.
É exatamente isso que me "mói o fígado", como diria um conhecido filósofo da atualidade. Quando desprezam a escola, os professores, o aprendizado, e supõem que apenas um ramo do conhecimento bastaria para compreender o que cantaram Piaf, Elis Regina, Simonal, Alceu Valença, Luiz Gonzaga — isso me causa desespero. Quando se reduz a humanidade inteira, com todas as suas experiências, mazelas e sofrimentos, apenas ao que eu entendo e sei, empobrecemos a todos. E não ver isso é sinal grave de não compreender o sentido da escola, da aprendizagem e do trabalho do professor. Imagine quanto deveria receber de salário alguém encarregado de nos preparar para receber essa herança.
Quanto vale a tua vida? Quanto vale a tua existência? Quanto vale ter um mínimo de noção do que fazer quando algo nos acontece? Quanto vale garantir que todos saibam que, em caso de emergência, existe um número a ligar? Quanto vale um médico saber exatamente onde operar? E, depois que ele sai da sala cirúrgica, quanto vale ele poder ouvir uma música, ler um livro, assistir a um filme — ou simplesmente conversar com pessoas que o entendam? Se ele precisar de um psicólogo, de onde veio esse profissional? De onde veio essa compreensão?
Entendo que nosso sistema de ensino tem falhas graves — sou um crítico mordaz delas desde sempre. Mas sei também que o problema não é o aprendizado, o conhecimento ou a sabedoria advinda das práticas escolares. Hoje parece que a escola e seu principal agente, o professor, estão desvinculados de todas as conquistas sociais, de todas as virtudes que alcançamos. Novos médicos, psicólogos, enfermeiros, cozinheiros, músicos — tudo o que frutifica vira mérito exclusivamente individual. Assim, o ato de ensinar tornou-se responsável pelo fracasso de um sistema que, na verdade, foi abandonado muito antes: pelo sucateamento do investimento, pela exigência crescente sem o correspondente cuidado, pela estrutura deficitária tratada como mero efeito colateral da universalização da educação — meta perseguida por décadas e hoje abandonada a troco de nada.
Por isso pergunto: a quem você deve o fato de compreender tudo o que está neste texto? De ser quem você é? Sei que jamais responderá em voz alta: "graças a alguns professores." Mas ambos sabemos, incomodamente, que foi exatamente por isso — e que negar isso não apaga a dívida. Ela segue lá, silenciosa e impagável.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Entre palácios, palhaços e sábios
Entre palácios, palhaços e sábios
Recentemente, assisti a alguns vídeos que chamavam os professores de "vagabundos", inclusive um deles em uma Câmara. Não é preciso dizer que vieram muitos outros buscando desmentir essas falas ridículas e deletérias, mas desde a primeira vez que vi um desses vídeos, vários gatilhos foram ativados em minha mente. Há muitas camadas nessa espinhosa questão, por isso, vale a pena examiná-las.
Primeiro: as duas falas que acompanhei foram feitas por socialites, oportunistas e influencers, pessoas jovens que, aparentemente, não conhecem o cotidiano de um trabalhador médio brasileiro, menos ainda de um professor. Quando vejo ônibus saindo daqui do terminal apinhados de gente às sete horas da manhã — os mesmos que já foram descritos numa música como "novos navios negreiros", canção que esses jovens influencers, ainda que com cargos públicos, provavelmente desconhecem — pergunto: onde estarão os filhos, sobrinhos e netos desses trabalhadores que vivem uma vida exaustiva? Pela lei, se menores de idade, deveriam estar na escola. Por que na escola?
Durante muito tempo — e aqui trato da proclamação da República (1889) — buscou-se transformar o país em direção à modernidade e superar a marca vergonhosa de cerca de 95% da população analfabeta, um nítido sinal de atraso econômico e social. Já naquela época entendia-se que escolarizar a população era condição fundamental para o país prosperar — verbo tão na moda entre os coaches de hoje. Vargas organizou um sistema de ensino integrado e, com pretensões políticas evidentes, ampliou o sistema escolar para que um número maior de crianças pudesse acessá-lo. Alguém se lembra de alguma declaração de Vargas chamando professores de vagabundos? Eu não. Estar rumo à modernidade, ao progresso e à riqueza das nações passava, necessariamente, por preparar o povo para esse desenvolvimento.
Curiosamente, o mesmo Vargas aprovou leis trabalhistas e sindicais que, no limite, permitiam greves lembremos, era a década de 1930. Ainda que os influencers aleguem que essa legislação está ultrapassada, não conheço nenhuma ideia inovadora, importante ou marcante que algum deles tenha apresentado e que tenha melhorado a situação do país, muita bravata e pouca ação. E note: preparar o que estava por vir passou e passa, necessariamente, por uma atividade que dá sentido à escola — a atividade docente. Mas vou facilitar para os influencers e chamar simplesmente de "professores", assim eles entendem mais rápido do que estamos falando.
Aqui poderia citar outra música, desta vez do Renato Russo, Música de trabalho, mas sem dúvida eles também não conheceriam, acomodados que estão em seus palácios. É importante notar que o direito à greve foi uma conquista como prevista em lei — na mesma leva mental que deveria preparar o Brasil para o futuro pelo ensino. Servia para que os trabalhadores contestassem condições deletérias de trabalho e não por ser uma carnavália circense. A noção de estudo, futuro, melhoria explica, aliás, por que o ensino técnico fez tanto sucesso no Brasil há algumas décadas: era a versão daquele momento da formação para a evolução. (Ordem e progresso, lembram?)
Onde estarão, afinal, os filhos dos trabalhadores que apinham os ônibus todas as manhãs? Por que o país insiste, centenariamente, em manter um sistema de formação para sua população? Evidentemente, não é para criar cabides de emprego no sistema escolar — para isso temos outras instâncias públicas com assessores aos montes como palácios, câmaras e cortes. Também não é por amor pessoal aos nossos filhos, tampouco por bondade despretensiosa. É por interesse mútuo. Os principais inventos, avanços e desenvolvimentos da humanidade são fruto de aprendizado construído pelo trabalho de professores — os mesmos que, em pleno 2026, foram chamados de vagabundos.
A jornada dos professores é em suma: exaustiva. Em uma sociedade que vem DESEDUCANDO seus filhos, dia após dia, sobrecarregando a escola, a tarefa de manter esses alunos em suas dependências e, além disso, ensiná-los, educá-los, prepará-los e formá-los, muitas vezes sem a colaboração dos próprios alunos. Realizar essa função torna-se cada vez mais desgastante e frustrante com medidas e projetos irreais que, mesmo em países ricos e bem estruturados, seriam difíceis — e aqui a música incômoda da Legião Urbana volta a soar.
Num país de terceiro mundo, tudo isso recai sobre nas costas dos professores: corrigir letras ilegíveis, decifrar pensamentos confusos, hierarquizar trabalhos mal feitos, cobrir lacunas de aprendizado e raciocínio, instigar o pensamento crítico e participativo, preparar novas atividades, lidar com universos completamente distintos numa mesma sala de aula, conviver com violência, medo, xingamentos, ameaças veladas e perseguições dentro e fora da escola — recebendo um salário que não permite às famílias dos professores desfrutar dos benefícios de uma carreira minimamente estruturada, nem fazer frente aos gastos com uma saúde que se deteriora dia a dia. Para, no final, ser chamado de vagabundo por jovens que deveriam representar o futuro instruído do Brasil. É isso que se chama de sensatez?
Não sei, mas me parece que chegamos perigosamente próximos — se já não estamos estamos dentro — de um colapso da profissão docente. Quem, em sã consciência, quereria entrar numa profissão com esse passivo? Quem se empenharia voluntariamente em ler, gastar tempo estudando, usar recursos pessoais com sofreguidão para comprar materiais e livros, estudar e trabalhar simultaneamente, para no final ser taxado de vagabundo, ofendido e agredido? Quem se submeteria a uma jornada de, no mínimo, dez horas diárias, pegando ônibus ou com o carro em péssimas condições por falta de recursos para mantê-lo? Espera — não estamos "próximos" disso. Estamos VIVENDO ISSO. Dá a impressão de que nós, professores, somos masoquistas. Mas mais certo do que isso é que esses influencers são sádicos. E para essa geração — não digo isso sem pesar, pois parte do erro foi dos pais e nosso —, ser sádico dá likes e votos.
Nunca pensei que diria isso, mas sinto saudades de quando o uso consciente de um dado falso, o apelo à mentira ou os exageros retóricos eram mal vistos e arruinavam reputações na política, na ciência e nos meios de comunicação. Jornais tinham uma seção chamada "Errata" — evidência do esforço para errar o mínimo possível. Hoje, sob o pretexto da liberdade de expressão — quase sempre acompanhada de uma irresponsabilidade galopante, como a dos quadrúpedes que a cometem —, esses sujeitos chafurdam na lama da ignorância, da calúnia e da difamação, sempre atrás de uma dose imediata de like, de uma carreira, de um generoso salário de sinecura, de um conforto que seus próprios esforços jamais justificariam.
Mas aqui é necessária a autocrítica: a quem formamos que dá palco a essas pessoas? Quem fornece os cliques intermináveis ou os votos que os e-eleitores depositam neles? Há algo errado com a educação, com a sociedade, com o sistema escolar — e também com os políticos e com os professores. Entre essas figuras, quem parece estar doutrinando mais a população? Entre o sábio sacrificado e o palhaço perverso, quem está ganhando? Quem aprecia História sabe que isso não é novo: desde Roma, os "políticos" sabem que, sem circo, o povo pode compreender sua situação e começar a reivindicar algo melhor. Os palácios se mantêm enquanto a plateia aplaude os palhaços.


