quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

As pequenas vilanias

Vivemos tempos estranhos, muito estranhos. A morte do cachorro “Orelha” pelas mãos de adolescentes nos faz pensar em tantos sinais de que nossa sociedade está mentalmente doente. Não se trata de doença mental que inviabiliza a razão, à qual chamarei aqui de cognitiva, essa desconstrói a realidade diante de nossos olhos, como bem o sabe quem acompanha idosos. Neste caso, a consciência ou, melhor dizendo, a noção de realidade não se ausentou desses adolescentes em nenhum momento do que aconteceu.

Foi imediata a correlação que fiz com a série Adolescência que, talvez, muitos de vocês tenham visto em um canal de assinatura. Adolescentes que, aparentemente, não teriam estrutura para serem violentos ou maldosos, de repente, se veem compelidos a atos extremos que fogem completamente à razão. Uma explosão de violência desmedida, descontrolada e perturbadora que o protagonista da série apresenta contra uma psicóloga ameaçando-a antes de voltar a sua postura fria e distante dos resultados que havia causado.

 Mas essa tragédia mais recente se liga a outras tantas vilanias das quais me lembro cometidas, em sua maioria, por jovens que tentam escapar das consequências de suas atitudes. Minha geração foi marcada por histórias como essas desde o assassinato de um indígena da tribo Pataxó, eterno Galdino, passando pela tortura de uma funcionária doméstica em um ponto de ônibus alegando-se, com apoio das famílias, que os meninos atacaram a mulher porque supunham que ela fosse uma desqualificada. Lembro-me vivamente que um dos entrevistados neste caso questionou a "justificativa” dos pais, pois, fosse quem fosse esses jovens jamais poderiam apedrejá-la! Honestamente, não acompanhei de perto os desdobramentos dessas histórias, mas sei, por levantamentos esporádicos feitos pela imprensa, que a punição deles foi claramente desproporcional às suas ações.

Mas minha mente continuou ligando pontos dessas histórias macabras que me acompanharam e terminou em algo que, pelo menos para mim, fez sentido. O incidente me lembrou um filme sensacional ganhador de vários prêmios, ele abordava o cotidiano de uma geração de crianças, na Alemanha da década de 1910. Caso se faça as contas, essas crianças seriam os jovens adultos que estiveram envolvidos com o movimento extremista mais famoso do século XX. Segundo a trama, muito bem desenvolvida e baseada em temas, realmente, indigestos, esses jovens acumulavam tensões, humilhações, sentimentos e situações que os deformavam, conduzindo-os a se tornarem pessoas inescrupulosas.

Não foi mero acaso que a principal vítima dessa nascente rede de ódio fosse uma criança com múltiplas deficiências. Vítimas vulneráveis de um sistema perniciosamente impessoal, esse caldo de rancor e insanidade, depois temperado por uma sociedade preocupada mais com sua manutenção - a aparência -, distraída com seus pequenos problemas cotidianos, com respostas imediatistas e com a aceitação hipócrita dos desmandos nas relações sociais, da época levou a essa arquitetura macabra da morte.

Pode soar alarmista, mas me pergunto: quais valores esses adolescentes demonstraram? Como esses jovens puderam divertir-se com uma atitude dessas? Quem os criou - ou acompanhou - durante seu amadurecimento? Por quantas instituições de formação passaram? Quais sinais eles emitiram? Quais informações e mensagens os alimentaram? Lembro da fala de um médico que disse: “se quem está criando seus filhos são as redes, então, estamos com problemas”. Parece que a História teimosamente se repete e a impunidade, ainda que não completa, vai ser a tônica deste nosso enredo atual. Faltam-nos heróis e sobram maus exemplos nas redes de (des)informação  à mão dos nossos jovens.   


domingo, 18 de janeiro de 2026

O Chico morreu

O Chico morreu


Quando era criança, com cerca de quatro anos, passava por um terreno baldio bem perto de onde eu morava e, então, percebi uma frase pichada na parede. Naquela idade, por mais precoce que fosse, - e não era muito -, ainda não sabia ler. Mas por algum motivo aquelas letras me chamavam a atenção e, como meu pai me contou rindo anos depois, eu perguntei a ele o que estava escrito ali. Ele me respondeu: “O Chico morreu!”. 

Como uma criança cheia de imaginação e querendo mostrar o seu valor, - por isso, meu pai achava graça da situação -, cada vez que eu passava pelo terreno, apontava para a frase e dizia: “O Chico morreu!”.

Mas e daí? Qual a moral da história?

Por incrível que pareça, muitos alunos acham que estudar é, realmente, fazer isso, decorar alguma coisa e repeti-la quando encontram algo relacionado com o assunto. Tão absurdo quanto eu tentar ler com quatro anos, antes de ser alfabetizado, (aliás, tenho outra história sobre leitura, mas essa vivi com minha mãe) é simplesmente decorar passagens, regras e fórmulas, só para responder questões imediatamente ligadas ao assunto. 

E por que é absurdo? Porque uma boa avaliação, pelo menos aquelas que fazem jus ao princípio de avaliar não pedem que você APENAS enuncie o assunto. O conhecimento superficial já aparece quando você pede para que o candidato, ou aluno, responda sobre os princípios fundamentais dos temas porque, na verdade, isso é conhecimento. Camadas e mais camadas de informações relacionadas e sistemicamente entrelaçadas.

Brincando com a frase inicial deste texto - coisa que fazia nas aulas que dei em universidades para demonstrar aos alunos, nem sempre ávidos por conhecimento, que as respostas esperadas nas avaliações não deveriam se deter em enunciar palavras sobre o assunto - dizer que o Chico havia morrido era o óbvio.

As dúvidas que deveriam surgir dessa afirmação seriam: quem era Chico? Quando ele morreu? Morreu de quê? Como ele morreu? Por que isso ficou gravado na parede? E, talvez, adentrando no campo da filosofia, por que um menino de cerca de quatro anos se interessava pelo que estava escrito?

Hoje, mais de quatro décadas depois, digo que não tenho a menor ideia de quem era esse Chico. Para mim essa frase só ecoa em minha cabeça, ainda, porque meu pai achou graça de uma criança decorar a frase e repeti-la cada vez que passava na frente do muro. Em tempo, espero que o Chico tenha morrido de morte natural, que tenha sido bem tranquila sua passagem e que ele descanse em paz. O que aprendi com essa vivência foi que, além das aparências, do significado óbvio das palavras, textos ou afirmações, existe um universo inteiro de informações, significados e conhecimentos, tudo representado pelo que falamos e comunicamos.

Fazendo aqui o que se espera da escola - e que ela, muitas vezes, não faz -, poderíamos dizer que isso se assemelha com a cena ao final de um dos filmes MIB quando, ao abrir a porta de um armário os protagonistas veem um Universo infinito diante de si. Aí está a riqueza da vida. E aqui poderíamos fazer um paralelo com outro filme, Gênio Indomável, quando um psicólogo afirma que, só por ler o livro sobre a vida da Oliver Twist, um órfão pobre que passa por inúmeras provações na vida, você não tem a dimensão verdadeira de como foi uma vida SINGULAR de um órfão: suas dores, desespero, sentimentos de fracasso, abandono e solidão etc. Toda essa riqueza só aparece quando você ultrapassa o óbvio.

Não sou o Chico, mas acho que se algum dia, por algum meio, eu viesse a saber que por minha causa alguém mudou a forma como apreendia o mundo, eu ficaria feliz. Assim, o destino ligou Chico, Hernan e, agora, você que está lendo este texto. E quem sabe quantas pessoas mais serão mudadas pelo fato que o Chico morreu - e que isso te levou a ampliar tanto a realidade que sua passagem será um marco em nossas vidas. 

E, agora, no fundo de minha mente ressoa: 

Chico ainda vive. 

Que assim seja!