Vivemos tempos estranhos, muito estranhos. A morte do cachorro “Orelha” pelas mãos de adolescentes nos faz pensar em tantos sinais de que nossa sociedade está mentalmente doente. Não se trata de doença mental que inviabiliza a razão, à qual chamarei aqui de cognitiva, essa desconstrói a realidade diante de nossos olhos, como bem o sabe quem acompanha idosos. Neste caso, a consciência ou, melhor dizendo, a noção de realidade não se ausentou desses adolescentes em nenhum momento do que aconteceu.
Foi imediata a correlação que fiz com a série Adolescência que, talvez, muitos de vocês tenham visto em um canal de assinatura. Adolescentes que, aparentemente, não teriam estrutura para serem violentos ou maldosos, de repente, se veem compelidos a atos extremos que fogem completamente à razão. Uma explosão de violência desmedida, descontrolada e perturbadora que o protagonista da série apresenta contra uma psicóloga ameaçando-a antes de voltar a sua postura fria e distante dos resultados que havia causado.
Mas essa tragédia mais recente se liga a outras tantas vilanias das quais me lembro cometidas, em sua maioria, por jovens que tentam escapar das consequências de suas atitudes. Minha geração foi marcada por histórias como essas desde o assassinato de um indígena da tribo Pataxó, eterno Galdino, passando pela tortura de uma funcionária doméstica em um ponto de ônibus alegando-se, com apoio das famílias, que os meninos atacaram a mulher porque supunham que ela fosse uma desqualificada. Lembro-me vivamente que um dos entrevistados neste caso questionou a "justificativa” dos pais, pois, fosse quem fosse esses jovens jamais poderiam apedrejá-la! Honestamente, não acompanhei de perto os desdobramentos dessas histórias, mas sei, por levantamentos esporádicos feitos pela imprensa, que a punição deles foi claramente desproporcional às suas ações.
Mas minha mente continuou ligando pontos dessas histórias macabras que me acompanharam e terminou em algo que, pelo menos para mim, fez sentido. O incidente me lembrou um filme sensacional ganhador de vários prêmios, ele abordava o cotidiano de uma geração de crianças, na Alemanha da década de 1910. Caso se faça as contas, essas crianças seriam os jovens adultos que estiveram envolvidos com o movimento extremista mais famoso do século XX. Segundo a trama, muito bem desenvolvida e baseada em temas, realmente, indigestos, esses jovens acumulavam tensões, humilhações, sentimentos e situações que os deformavam, conduzindo-os a se tornarem pessoas inescrupulosas.
Não foi mero acaso que a principal vítima dessa nascente rede de ódio fosse uma criança com múltiplas deficiências. Vítimas vulneráveis de um sistema perniciosamente impessoal, esse caldo de rancor e insanidade, depois temperado por uma sociedade preocupada mais com sua manutenção - a aparência -, distraída com seus pequenos problemas cotidianos, com respostas imediatistas e com a aceitação hipócrita dos desmandos nas relações sociais, da época levou a essa arquitetura macabra da morte.
Pode soar alarmista, mas me pergunto: quais valores esses adolescentes demonstraram? Como esses jovens puderam divertir-se com uma atitude dessas? Quem os criou - ou acompanhou - durante seu amadurecimento? Por quantas instituições de formação passaram? Quais sinais eles emitiram? Quais informações e mensagens os alimentaram? Lembro da fala de um médico que disse: “se quem está criando seus filhos são as redes, então, estamos com problemas”. Parece que a História teimosamente se repete e a impunidade, ainda que não completa, vai ser a tônica deste nosso enredo atual. Faltam-nos heróis e sobram maus exemplos nas redes de (des)informação à mão dos nossos jovens.