terça-feira, 25 de novembro de 2025

Hoje lembrei de um grande pai

Hoje me lembrei... 

Sei que vai parecer curioso o que vou dizer, mas hoje me lembrei do pai da Luísa. Provavelmente, porque teve uma confraternização com os pais dos alunos e isso acabou me trazendo tantas histórias à mente. A do pai da Luísa foi uma delas, o conheci durante a pandemia. Ela assistia às aulas rigorosamente por causa do afastamento social, me lembro como se fosse hoje ela entrando na sala virtual e sua foto, pois quase todos usavam só fotos, com o microfone aberto respondendo a chamada. Em minha memória, por uma brincadeira  devido a ela ter ido ao banheiro, quando eu estava fazendo a chamada o pai me avisou que ela saiu e já voltava.

Brincando disse a ele que notei a voz diferente, ele riu e depois ela chegou. Na aula seguinte ao fazer a chamada eu perguntei a ela se o pai dela estava presente também para lançar no diário, ele rindo respondeu que sim. Eu notava a voz de longe com um misto de espanto e ironia respondendo. E assim fomos, pandemia a fora, fazendo chamadas inusitadas, no final, até os alunos brincavam com o pai da Luísa. Ainda guardo na memória o fato de ter dado 8 para a Luísa e 10 para o pai dela. Uma pessoa, pelo que podíamos ouvir, risonha e extremamente preocupada em fazê-la participar, estudar e aprender. Às vezes, quase podia vê-lo balançando a cabeça junto com ela ao ouvir a explicação de algum tema.

Não sei se ela sabia, mas eu a vi com o pai algumas vezes, pois eles moravam perto de onde minha filha estuda. Os dois eram altos, ele um homem com cerca de 1,90, acima do peso, com um andar mais sossegado; sempre próximo ou de mãos dadas com a Luísa. Admirava a preocupação dele com ela, admirava um ar meio sério e ao mesmo tempo debochado que ele parecia ter. Apesar de nunca ter me aproximado dele para dizer que eu era o professor dela, o pai da Luísa me impressionou. Hoje, vi em diversos pais o pai da Luísa. Hoje, vi aquele senhor enorme, de passo um pouco lento vindo em minha direção com um meio sorriso no rosto e um ar mais sério dizendo: Professor!

Foi ao fim de uma reunião, depois de termos discutido todos os assuntos "importantes", depois de todas as burocracias, de definirmos os dias para publicar tal e qual coisa ou a letra que iríamos usar nos documentos, etc. No último segundo quando parecia que os assuntos tinham se encerrado que a voz monótona disse: "Hã, uma última informação, o pai da Luísa faleceu de Covid!", que foi seguido de alguns "Nossa" e "Puxa",  daí a reunião foi encerrada. E eu com os olhos cheios de lágrimas fiquei olhando para a parede tentando entender, como tudo aconteceu como aconteceu! Lembro de custar puxar o ar, lembro de pensar nela e daquele pai preocupado com o futuro da filha, daquele pai que estava junto, que brincava e perguntava a nota dela, que fazia piadas para deixar tudo mais leve... um pai que a acompanhava e que, eu sei que de outro lugar, continua a acompanhando.

Rezei inúmeras vezes para que eu tivesse me enganado, que ele não tivesse falecido que, mais cedo ou mais tarde, fosse vê-los andando pelo bairro e ficar feliz por tudo ter sido um grande engano! Talvez uma das coisas que mais me chocou foi a maneira como a notícia foi dada, houve uma comunicação simples, rápida e esquecida, ocupando apenas os segundos finais da reunião OFICIAL. Ainda espero que tenha sido um engano, juro que ainda está preso na minha memória os dois de mãos dadas, mesmo sem nunca mais tê-los visto assim. Levarei o pai dela eternamente em minha memória e vou admirá-lo, como pai, até o fim dos meus dias!