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terça-feira, 23 de junho de 2026
sábado, 13 de junho de 2026
quinta-feira, 11 de junho de 2026
quarta-feira, 10 de junho de 2026
quinta-feira, 4 de junho de 2026
terça-feira, 2 de junho de 2026
Trecho do filme Band of Brothers (Irmão de guerra)
A série ainda está disponível na Netflix e recomendo as duas temporadas
(a 2 temporada se chama O Pacífico).
quarta-feira, 27 de maio de 2026
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Quanto vale a vida perdida sem razão?
Quanto vale a vida perdida sem razão?
A frase que dá título a este texto é de uma música que ouvi um sem-fim de vezes na adolescência. Lembro bem a enxurrada de sentimentos, afetos, lembranças, noções e reflexões que ela me despertou — era como se eu fosse lançado a outra dimensão, como se ela me questionasse a queima-roupa, sendo eu apenas um garoto: do que vale uma vida se ela não tem significado? E quanto se perderia se eu não tivesse razões para vivê-la plenamente? Hoje, décadas depois dessas vivências, transformado por inúmeras letras, sons, ritmos e pensamentos, volto a elas para dar significado ao mundo — um mundo que vai se tornando desbotado nestes tempos sombrios.
Não, este texto não será sobre as músicas, porque apesar de amá-las, elas representavam para mim instrumentos para que eu enxergasse o mundo, para que eu pudesse torná-lo mais meu, para que eu vivesse esses milhões de vidas em uma única. Teria sido uma experiência magnífica se eu tivesse ficado apenas aproveitando cada uma dessas canções pelos replays que lhes dei vida afora, dia após dia. Mas não foi só isso. Lembro que, na faculdade, tivemos uma discussão sobre músicas que marcaram minha geração e, depois de explicar o que sentia pelas letras da Legião Urbana, um amigo conseguiu definir perfeitamente o que eu apenas intuía: essas letras nos dizem muito mais do que as letras estrangeiras, porque as entendemos.
Com esse preâmbulo, podemos entrar no assunto do texto. Talvez você não entenda bem para que serve a instrução — ou seja, para que aprender um conjunto imenso de "coisas" para vivermos no mundo. Poderíamos dizer que quando aprendemos a medir quantidades com precisão em artes ou matemática, física ou química, também estamos sendo preparados para fazer pratos mais refinados. Que o mesmo treino diário para acompanhar uma explicação é o que nos permite, depois, dirigir um automóvel com atenção. Que a prática esportiva que melhora o sono também afia a coordenação para emendar um fio elétrico ou cortar algo sem se machucar. São exemplos evidentes, imediatos e simplistas — embora todos sejam verdadeiros. Mas podemos ir além. Foi exatamente isso que aprendi ao ler Fernão Capelo Gaivota na adolescência, por indicação de uma professora de português.
Conforme estudamos, começamos a juntar coisas: letras, sons, palavras, elementos — dos mais simples aos mais complexos, das informações mais óbvias e elementares às mais refinadas e surpreendentemente conectadas. No campo da educação, é comum encontrar a ideia de que, ao sermos ensinados, passamos a ser, de fato, humanos — pois recebemos uma espécie de herança cultural ancestral, e para tomar posse dela basta ser inserido nesse conjunto de coisas que nos cercam. Como vim de uma família de imigrantes, foi interessante, depois de aprender isso, observar pessoas mais velhas experimentando esse processo: havia estranhamentos, espantos e raciocínios que são muito difíceis para crianças, mas mais acessíveis a jovens adultos que já acumularam camadas suficientes de mundo.
Algumas das ferramentas de que mais gostei para me apropriar dessa herança foram as palavras e as músicas. Diga se é possível ouvir apenas uma vez e captar toda a riqueza desta frase: "Luz… e sentido… e palavra, palavra é que o coração não pensa". Ou desta outra, com palavras similares e significados distintos: "A novidade, que vem do Brejo da Cruz… eram crianças e comiam luz". E "Rosa de Hiroshima"? Como deixar de citar Anunciação: "Tu vens, tu vens, eu já escuto teus sinais". Paro por aqui — não por falta de exemplos, mas porque a herança cultural só cresce, só se reelabora, só se multiplica com cada um de nós relacionando-se com ela.
É exatamente isso que me "mói o fígado", como diria um conhecido filósofo da atualidade. Quando desprezam a escola, os professores, o aprendizado, e supõem que apenas um ramo do conhecimento bastaria para compreender o que cantaram Piaf, Elis Regina, Simonal, Alceu Valença, Luiz Gonzaga — isso me causa desespero. Quando se reduz a humanidade inteira, com todas as suas experiências, mazelas e sofrimentos, apenas ao que eu entendo e sei, empobrecemos a todos. E não ver isso é sinal grave de não compreender o sentido da escola, da aprendizagem e do trabalho do professor. Imagine quanto deveria receber de salário alguém encarregado de nos preparar para receber essa herança.
Quanto vale a tua vida? Quanto vale a tua existência? Quanto vale ter um mínimo de noção do que fazer quando algo nos acontece? Quanto vale garantir que todos saibam que, em caso de emergência, existe um número a ligar? Quanto vale um médico saber exatamente onde operar? E, depois que ele sai da sala cirúrgica, quanto vale ele poder ouvir uma música, ler um livro, assistir a um filme — ou simplesmente conversar com pessoas que o entendam? Se ele precisar de um psicólogo, de onde veio esse profissional? De onde veio essa compreensão?
Entendo que nosso sistema de ensino tem falhas graves — sou um crítico mordaz delas desde sempre. Mas sei também que o problema não é o aprendizado, o conhecimento ou a sabedoria advinda das práticas escolares. Hoje parece que a escola e seu principal agente, o professor, estão desvinculados de todas as conquistas sociais, de todas as virtudes que alcançamos. Novos médicos, psicólogos, enfermeiros, cozinheiros, músicos — tudo o que frutifica vira mérito exclusivamente individual. Assim, o ato de ensinar tornou-se responsável pelo fracasso de um sistema que, na verdade, foi abandonado muito antes: pelo sucateamento do investimento, pela exigência crescente sem o correspondente cuidado, pela estrutura deficitária tratada como mero efeito colateral da universalização da educação — meta perseguida por décadas e hoje abandonada a troco de nada.
Por isso pergunto: a quem você deve o fato de compreender tudo o que está neste texto? De ser quem você é? Sei que jamais responderá em voz alta: "graças a alguns professores." Mas ambos sabemos, incomodamente, que foi exatamente por isso — e que negar isso não apaga a dívida. Ela segue lá, silenciosa e impagável.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Entre palácios, palhaços e sábios
Entre palácios, palhaços e sábios
Recentemente, assisti a alguns vídeos que chamavam os professores de "vagabundos", inclusive um deles em uma Câmara. Não é preciso dizer que vieram muitos outros buscando desmentir essas falas ridículas e deletérias, mas desde a primeira vez que vi um desses vídeos, vários gatilhos foram ativados em minha mente. Há muitas camadas nessa espinhosa questão, por isso, vale a pena examiná-las.
Primeiro: as duas falas que acompanhei foram feitas por socialites, oportunistas e influencers, pessoas jovens que, aparentemente, não conhecem o cotidiano de um trabalhador médio brasileiro, menos ainda de um professor. Quando vejo ônibus saindo daqui do terminal apinhados de gente às sete horas da manhã — os mesmos que já foram descritos numa música como "novos navios negreiros", canção que esses jovens influencers, ainda que com cargos públicos, provavelmente desconhecem — pergunto: onde estarão os filhos, sobrinhos e netos desses trabalhadores que vivem uma vida exaustiva? Pela lei, se menores de idade, deveriam estar na escola. Por que na escola?
Durante muito tempo — e aqui trato da proclamação da República (1889) — buscou-se transformar o país em direção à modernidade e superar a marca vergonhosa de cerca de 95% da população analfabeta, um nítido sinal de atraso econômico e social. Já naquela época entendia-se que escolarizar a população era condição fundamental para o país prosperar — verbo tão na moda entre os coaches de hoje. Vargas organizou um sistema de ensino integrado e, com pretensões políticas evidentes, ampliou o sistema escolar para que um número maior de crianças pudesse acessá-lo. Alguém se lembra de alguma declaração de Vargas chamando professores de vagabundos? Eu não. Estar rumo à modernidade, ao progresso e à riqueza das nações passava, necessariamente, por preparar o povo para esse desenvolvimento.
Curiosamente, o mesmo Vargas aprovou leis trabalhistas e sindicais que, no limite, permitiam greves lembremos, era a década de 1930. Ainda que os influencers aleguem que essa legislação está ultrapassada, não conheço nenhuma ideia inovadora, importante ou marcante que algum deles tenha apresentado e que tenha melhorado a situação do país, muita bravata e pouca ação. E note: preparar o que estava por vir passou e passa, necessariamente, por uma atividade que dá sentido à escola — a atividade docente. Mas vou facilitar para os influencers e chamar simplesmente de "professores", assim eles entendem mais rápido do que estamos falando.
Aqui poderia citar outra música, desta vez do Renato Russo, Música de trabalho, mas sem dúvida eles também não conheceriam, acomodados que estão em seus palácios. É importante notar que o direito à greve foi uma conquista como prevista em lei — na mesma leva mental que deveria preparar o Brasil para o futuro pelo ensino. Servia para que os trabalhadores contestassem condições deletérias de trabalho e não por ser uma carnavália circense. A noção de estudo, futuro, melhoria explica, aliás, por que o ensino técnico fez tanto sucesso no Brasil há algumas décadas: era a versão daquele momento da formação para a evolução. (Ordem e progresso, lembram?)
Onde estarão, afinal, os filhos dos trabalhadores que apinham os ônibus todas as manhãs? Por que o país insiste, centenariamente, em manter um sistema de formação para sua população? Evidentemente, não é para criar cabides de emprego no sistema escolar — para isso temos outras instâncias públicas com assessores aos montes como palácios, câmaras e cortes. Também não é por amor pessoal aos nossos filhos, tampouco por bondade despretensiosa. É por interesse mútuo. Os principais inventos, avanços e desenvolvimentos da humanidade são fruto de aprendizado construído pelo trabalho de professores — os mesmos que, em pleno 2026, foram chamados de vagabundos.
A jornada dos professores é em suma: exaustiva. Em uma sociedade que vem DESEDUCANDO seus filhos, dia após dia, sobrecarregando a escola, a tarefa de manter esses alunos em suas dependências e, além disso, ensiná-los, educá-los, prepará-los e formá-los, muitas vezes sem a colaboração dos próprios alunos. Realizar essa função torna-se cada vez mais desgastante e frustrante com medidas e projetos irreais que, mesmo em países ricos e bem estruturados, seriam difíceis — e aqui a música incômoda da Legião Urbana volta a soar.
Num país de terceiro mundo, tudo isso recai sobre nas costas dos professores: corrigir letras ilegíveis, decifrar pensamentos confusos, hierarquizar trabalhos mal feitos, cobrir lacunas de aprendizado e raciocínio, instigar o pensamento crítico e participativo, preparar novas atividades, lidar com universos completamente distintos numa mesma sala de aula, conviver com violência, medo, xingamentos, ameaças veladas e perseguições dentro e fora da escola — recebendo um salário que não permite às famílias dos professores desfrutar dos benefícios de uma carreira minimamente estruturada, nem fazer frente aos gastos com uma saúde que se deteriora dia a dia. Para, no final, ser chamado de vagabundo por jovens que deveriam representar o futuro instruído do Brasil. É isso que se chama de sensatez?
Não sei, mas me parece que chegamos perigosamente próximos — se já não estamos estamos dentro — de um colapso da profissão docente. Quem, em sã consciência, quereria entrar numa profissão com esse passivo? Quem se empenharia voluntariamente em ler, gastar tempo estudando, usar recursos pessoais com sofreguidão para comprar materiais e livros, estudar e trabalhar simultaneamente, para no final ser taxado de vagabundo, ofendido e agredido? Quem se submeteria a uma jornada de, no mínimo, dez horas diárias, pegando ônibus ou com o carro em péssimas condições por falta de recursos para mantê-lo? Espera — não estamos "próximos" disso. Estamos VIVENDO ISSO. Dá a impressão de que nós, professores, somos masoquistas. Mas mais certo do que isso é que esses influencers são sádicos. E para essa geração — não digo isso sem pesar, pois parte do erro foi dos pais e nosso —, ser sádico dá likes e votos.
Nunca pensei que diria isso, mas sinto saudades de quando o uso consciente de um dado falso, o apelo à mentira ou os exageros retóricos eram mal vistos e arruinavam reputações na política, na ciência e nos meios de comunicação. Jornais tinham uma seção chamada "Errata" — evidência do esforço para errar o mínimo possível. Hoje, sob o pretexto da liberdade de expressão — quase sempre acompanhada de uma irresponsabilidade galopante, como a dos quadrúpedes que a cometem —, esses sujeitos chafurdam na lama da ignorância, da calúnia e da difamação, sempre atrás de uma dose imediata de like, de uma carreira, de um generoso salário de sinecura, de um conforto que seus próprios esforços jamais justificariam.
Mas aqui é necessária a autocrítica: a quem formamos que dá palco a essas pessoas? Quem fornece os cliques intermináveis ou os votos que os e-eleitores depositam neles? Há algo errado com a educação, com a sociedade, com o sistema escolar — e também com os políticos e com os professores. Entre essas figuras, quem parece estar doutrinando mais a população? Entre o sábio sacrificado e o palhaço perverso, quem está ganhando? Quem aprecia História sabe que isso não é novo: desde Roma, os "políticos" sabem que, sem circo, o povo pode compreender sua situação e começar a reivindicar algo melhor. Os palácios se mantêm enquanto a plateia aplaude os palhaços.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
quarta-feira, 22 de abril de 2026
terça-feira, 10 de março de 2026
Anotações da revisão sobre Feudalismo e ascensão da Burguesia
Imagem 1: O Sistema Feudal (Estrutura e Relações)
Esta imagem foi criada para organizar visualmente os dois principais diagramas da sua primeira lousa. No topo, você vê a representação do país dividido em feudos (a grade), onde os nobres devem obediência ao Rei (a coroa). Na parte inferior, há um infográfico detalhado do "Feudo", separando claramente as duas relações de poder: a Suserania e Vassalagem (entre nobres, com as espadas) e a Servidão (entre o senhor e o servo que trabalha na terra, produzindo riqueza).
Lado Esquerdo (Tudor): Mostra o absolutismo com apoio da burguesia (representada pelo ícone de moedas e comércio).
Lado Direito (Stuart): Mostra o absolutismo em confronto com a burguesia e as tensões religiosas (Católicos vs. Protestantes). Note como a linha em zigue-zague (da sua lousa) foi transformada em um gráfico de instabilidade.
Resultado Final: O diagrama termina apontando para a criação da Monarquia Parlamentarista Constitucional, onde o poder político passa para as mãos de protestantes e burgueses
segunda-feira, 9 de março de 2026
domingo, 8 de março de 2026
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
8 anos - Como fazer anotações de leitura focadas na compreensão e no estudo
Roteiro de leitura focada na compreensão e no estudo
1. Que capítulo você estudou (título e páginas)?
2. Que assuntos (item, subitem, parte etc) estudou?
a.
b.
c.
d.
e.
…
3. Qual o período que você estudou?
(ex: Século XVI, Idade Média, 1929 etc)
4. Onde ocorreram os fatos, assuntos ou acontecimentos?
(ex.: EUA, Alemanha, Brasil, São Paulo, Sorocaba etc).
5. Quem participou e qual a sua importância?
(ex,: Rei Henrique VIII - monarca que criou uma nova religião porque teve problemas com o catolicismo; Deodoro da Fonseca - proclamou a República no Brasil etc)
6. Quais os resultados?
(ex.: Quebra da Bolsa de NY - falência de milhares de empresas com desemprego em massa; Cercamentos - expulsão dos servos e crescimento desordenado das cidades etc).
7. Quais dúvidas você ficou?
(e.: Como a existência de empresas fraudulentas (fantasmas) contaminou a economia real dos EUA?; Por que as pessoas não permaneciam no campo ao invés de ir para as cidades quando o cercamento avançou?)
ROTEIRO BÁSICO PARA APRESENTAÇÃO DOS 8 ANOS
Roteiro para Apresentação dos 8º anos
Capa do slide
Título: Assunto que vai desenvolver
Integrantes do grupo [Sempre primeiro e último nome dos integrantes]
Série da qual os integrantes fazem parte.
Contexto Histórico: o que estava acontecendo naquele momento.
Personagem(ns) Histórico(s):Quem estava envolvido com o assunto que está desenvolvendo.
Resultado: Como esse assunto termina na parte que estudou.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
O dia em que minha filha soube que eu morreria
O dia em que minha filha soube que, algum dia, eu morreria
Quando minha filha era muito pequena, cerca de quatro anos, ela assistia a um desenho na televisão. Era um canal pago, ainda não os chamávamos de “streaming”. Eu estava sentado no sofá enquanto ela brincava no chão, acompanhando distraidamente a história. Posso estar enganado, mas acho que era Caillou.
Em um dos episódios, falava-se sobre a morte de alguém da família. O que me chamou a atenção foi perceber que em determinado momento passou a assistir a história com atenção redobrada e… a senti-la. Fiquei observando seu rosto. Seus olhos acompanhavam cada cena com uma seriedade incomum.Havia algo ali: um sofrimento silencioso, a tentativa de compreender o que estava sendo dito.
Ela começou a fazer perguntas. Perguntas simples na forma, mas profundamente sinceras na intenção e, apesar de sempre termos conversas cheias de trocas e descobertas, aquela não parecia ser uma das conversas que cairiam no esquecimento. E, como podem ver, não caiu.
Enquanto eu respondia, percebi algo acontecendo. Frase após frase, ela ia relacionando o desenho com a própria vida. Vi quando o entendimento chegou. Vi o pânico nascer em seu rosto. Ela se levantou, virou-se para mim e me abraçou pela cintura e, com um medo genuino estampado nos olhos me perguntou:
- Pai… você vai morrer?
Naquele instante, não sei dizer o que senti. Eu percebia sua dor, mas não queria mentir. Tive que reunir toda minha recente experiência como pai para encontrar uma resposta que fosse, ao mesmo tempo, verdadeira e tranquilizadora.
Passei a mão em seus cabelos e disse com cuidado:
- Filha, não posso mentir para você. Todo mundo que está vivo, um dia vai morrer. O papai também.
E ela começou a chorar.
- Mas isso pode acontecer só daqui há muitos anos. Provavelmente, quando você estiver crescida, talvez, até tenha filhos que eu vou conhecer. Temos muito tempo juntos ainda, muito mesmo.
Ela me abraçou com força e disse que não queria que eu morresse. Depois, com o tempo acalmou-se e voltou a brincar, como se tudo já tivesse voltado ao normal. Não me lembro de voltar diretamente a esse assunto. Mas nunca esqueci essa vez, porque me marcou muito o conflito de ideias e sentimentos, porque tive orgulho de vê-la compreender algo tão complexo sozinha, a coragem de formular, em meio ao medo, uma pergunta tão essencial, e o peso da responsabilidade de responder sem destruir sua inocência, mas sem negar a verdade. Como dizer a verdade sem ferir?
Fiz o melhor que pude. Recentemente, ao comentar com ela sobre algumas coisas que ainda preciso organizar como: ideias, reflexões, registros que gostaria que ficassem conhecidos mesmo se eu partisse, ela me interrompeu e com ar de incredulidade me disse:
- Não quero ouvir.
Mesmo assim, expliquei que certas ideias não podem desaparecer sem deixar rastros, são essas que precisam permanecer. E talvez seja justamente por isso que eu escrevo.
domingo, 8 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
As pequenas vilanias
Vivemos tempos estranhos, muito estranhos. A morte do cachorro “Orelha” pelas mãos de adolescentes nos faz pensar em tantos sinais de que nossa sociedade está mentalmente doente. Não se trata de doença mental que inviabiliza a razão, à qual chamarei aqui de cognitiva, essa desconstrói a realidade diante de nossos olhos, como bem o sabe quem acompanha idosos. Neste caso, a consciência ou, melhor dizendo, a noção de realidade não se ausentou desses adolescentes em nenhum momento do que aconteceu.
Foi imediata a correlação que fiz com a série Adolescência que, talvez, muitos de vocês tenham visto em um canal de assinatura. Adolescentes que, aparentemente, não teriam estrutura para serem violentos ou maldosos, de repente, se veem compelidos a atos extremos que fogem completamente à razão. Uma explosão de violência desmedida, descontrolada e perturbadora que o protagonista da série apresenta contra uma psicóloga ameaçando-a antes de voltar a sua postura fria e distante dos resultados que havia causado.
Mas essa tragédia mais recente se liga a outras tantas vilanias das quais me lembro cometidas, em sua maioria, por jovens que tentam escapar das consequências de suas atitudes. Minha geração foi marcada por histórias como essas desde o assassinato de um indígena da tribo Pataxó, eterno Galdino, passando pela tortura de uma funcionária doméstica em um ponto de ônibus alegando-se, com apoio das famílias, que os meninos atacaram a mulher porque supunham que ela fosse uma desqualificada. Lembro-me vivamente que um dos entrevistados neste caso questionou a "justificativa” dos pais, pois, fosse quem fosse esses jovens jamais poderiam apedrejá-la! Honestamente, não acompanhei de perto os desdobramentos dessas histórias, mas sei, por levantamentos esporádicos feitos pela imprensa, que a punição deles foi claramente desproporcional às suas ações.
Mas minha mente continuou ligando pontos dessas histórias macabras que me acompanharam e terminou em algo que, pelo menos para mim, fez sentido. O incidente me lembrou um filme sensacional ganhador de vários prêmios, ele abordava o cotidiano de uma geração de crianças, na Alemanha da década de 1910. Caso se faça as contas, essas crianças seriam os jovens adultos que estiveram envolvidos com o movimento extremista mais famoso do século XX. Segundo a trama, muito bem desenvolvida e baseada em temas, realmente, indigestos, esses jovens acumulavam tensões, humilhações, sentimentos e situações que os deformavam, conduzindo-os a se tornarem pessoas inescrupulosas.
Não foi mero acaso que a principal vítima dessa nascente rede de ódio fosse uma criança com múltiplas deficiências. Vítimas vulneráveis de um sistema perniciosamente impessoal, esse caldo de rancor e insanidade, depois temperado por uma sociedade preocupada mais com sua manutenção - a aparência -, distraída com seus pequenos problemas cotidianos, com respostas imediatistas e com a aceitação hipócrita dos desmandos nas relações sociais, da época levou a essa arquitetura macabra da morte.
Pode soar alarmista, mas me pergunto: quais valores esses adolescentes demonstraram? Como esses jovens puderam divertir-se com uma atitude dessas? Quem os criou - ou acompanhou - durante seu amadurecimento? Por quantas instituições de formação passaram? Quais sinais eles emitiram? Quais informações e mensagens os alimentaram? Lembro da fala de um médico que disse: “se quem está criando seus filhos são as redes, então, estamos com problemas”. Parece que a História teimosamente se repete e a impunidade, ainda que não completa, vai ser a tônica deste nosso enredo atual. Faltam-nos heróis e sobram maus exemplos nas redes de (des)informação à mão dos nossos jovens.
domingo, 18 de janeiro de 2026
O Chico morreu
O Chico morreu
Quando era criança, com cerca de quatro anos, passava por um terreno baldio bem perto de onde eu morava e, então, percebi uma frase pichada na parede. Naquela idade, por mais precoce que fosse, - e não era muito -, ainda não sabia ler. Mas por algum motivo aquelas letras me chamavam a atenção e, como meu pai me contou rindo anos depois, eu perguntei a ele o que estava escrito ali. Ele me respondeu: “O Chico morreu!”.
Como uma criança cheia de imaginação e querendo mostrar o seu valor, - por isso, meu pai achava graça da situação -, cada vez que eu passava pelo terreno, apontava para a frase e dizia: “O Chico morreu!”.
Mas e daí? Qual a moral da história?
Por incrível que pareça, muitos alunos acham que estudar é, realmente, fazer isso, decorar alguma coisa e repeti-la quando encontram algo relacionado com o assunto. Tão absurdo quanto eu tentar ler com quatro anos, antes de ser alfabetizado, (aliás, tenho outra história sobre leitura, mas essa vivi com minha mãe) é simplesmente decorar passagens, regras e fórmulas, só para responder questões imediatamente ligadas ao assunto.
E por que é absurdo? Porque uma boa avaliação, pelo menos aquelas que fazem jus ao princípio de avaliar não pedem que você APENAS enuncie o assunto. O conhecimento superficial já aparece quando você pede para que o candidato, ou aluno, responda sobre os princípios fundamentais dos temas porque, na verdade, isso é conhecimento. Camadas e mais camadas de informações relacionadas e sistemicamente entrelaçadas.
Brincando com a frase inicial deste texto - coisa que fazia nas aulas que dei em universidades para demonstrar aos alunos, nem sempre ávidos por conhecimento, que as respostas esperadas nas avaliações não deveriam se deter em enunciar palavras sobre o assunto - dizer que o Chico havia morrido era o óbvio.
As dúvidas que deveriam surgir dessa afirmação seriam: quem era Chico? Quando ele morreu? Morreu de quê? Como ele morreu? Por que isso ficou gravado na parede? E, talvez, adentrando no campo da filosofia, por que um menino de cerca de quatro anos se interessava pelo que estava escrito?
Hoje, mais de quatro décadas depois, digo que não tenho a menor ideia de quem era esse Chico. Para mim essa frase só ecoa em minha cabeça, ainda, porque meu pai achou graça de uma criança decorar a frase e repeti-la cada vez que passava na frente do muro. Em tempo, espero que o Chico tenha morrido de morte natural, que tenha sido bem tranquila sua passagem e que ele descanse em paz. O que aprendi com essa vivência foi que, além das aparências, do significado óbvio das palavras, textos ou afirmações, existe um universo inteiro de informações, significados e conhecimentos, tudo representado pelo que falamos e comunicamos.
Fazendo aqui o que se espera da escola - e que ela, muitas vezes, não faz -, poderíamos dizer que isso se assemelha com a cena ao final de um dos filmes MIB quando, ao abrir a porta de um armário os protagonistas veem um Universo infinito diante de si. Aí está a riqueza da vida. E aqui poderíamos fazer um paralelo com outro filme, Gênio Indomável, quando um psicólogo afirma que, só por ler o livro sobre a vida da Oliver Twist, um órfão pobre que passa por inúmeras provações na vida, você não tem a dimensão verdadeira de como foi uma vida SINGULAR de um órfão: suas dores, desespero, sentimentos de fracasso, abandono e solidão etc. Toda essa riqueza só aparece quando você ultrapassa o óbvio.
Não sou o Chico, mas acho que se algum dia, por algum meio, eu viesse a saber que por minha causa alguém mudou a forma como apreendia o mundo, eu ficaria feliz. Assim, o destino ligou Chico, Hernan e, agora, você que está lendo este texto. E quem sabe quantas pessoas mais serão mudadas pelo fato que o Chico morreu - e que isso te levou a ampliar tanto a realidade que sua passagem será um marco em nossas vidas.
E, agora, no fundo de minha mente ressoa:
Chico ainda vive.
Que assim seja!





























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