O dia em que minha filha soube que, algum dia, eu morreria
Quando minha filha era muito pequena, cerca de quatro anos, ela assistia a um desenho na televisão. Era um canal pago, ainda não os chamávamos de “streaming”. Eu estava sentado no sofá enquanto ela brincava no chão, acompanhando distraidamente a história. Posso estar enganado, mas acho que era Caillou.
Em um dos episódios, falava-se sobre a morte de alguém da família. O que me chamou a atenção foi perceber que em determinado momento passou a assistir a história com atenção redobrada e… a senti-la. Fiquei observando seu rosto. Seus olhos acompanhavam cada cena com uma seriedade incomum.Havia algo ali: um sofrimento silencioso, a tentativa de compreender o que estava sendo dito.
Ela começou a fazer perguntas. Perguntas simples na forma, mas profundamente sinceras na intenção e, apesar de sempre termos conversas cheias de trocas e descobertas, aquela não parecia ser uma das conversas que cairiam no esquecimento. E, como podem ver, não caiu.
Enquanto eu respondia, percebi algo acontecendo. Frase após frase, ela ia relacionando o desenho com a própria vida. Vi quando o entendimento chegou. Vi o pânico nascer em seu rosto. Ela se levantou, virou-se para mim e me abraçou pela cintura e, com um medo genuino estampado nos olhos me perguntou:
- Pai… você vai morrer?
Naquele instante, não sei dizer o que senti. Eu percebia sua dor, mas não queria mentir. Tive que reunir toda minha recente experiência como pai para encontrar uma resposta que fosse, ao mesmo tempo, verdadeira e tranquilizadora.
Passei a mão em seus cabelos e disse com cuidado:
- Filha, não posso mentir para você. Todo mundo que está vivo, um dia vai morrer. O papai também.
E ela começou a chorar.
- Mas isso pode acontecer só daqui há muitos anos. Provavelmente, quando você estiver crescida, talvez, até tenha filhos que eu vou conhecer. Temos muito tempo juntos ainda, muito mesmo.
Ela me abraçou com força e disse que não queria que eu morresse. Depois, com o tempo acalmou-se e voltou a brincar, como se tudo já tivesse voltado ao normal. Não me lembro de voltar diretamente a esse assunto. Mas nunca esqueci essa vez, porque me marcou muito o conflito de ideias e sentimentos, porque tive orgulho de vê-la compreender algo tão complexo sozinha, a coragem de formular, em meio ao medo, uma pergunta tão essencial, e o peso da responsabilidade de responder sem destruir sua inocência, mas sem negar a verdade. Como dizer a verdade sem ferir?
Fiz o melhor que pude. Recentemente, ao comentar com ela sobre algumas coisas que ainda preciso organizar como: ideias, reflexões, registros que gostaria que ficassem conhecidos mesmo se eu partisse, ela me interrompeu e com ar de incredulidade me disse:
- Não quero ouvir.
Mesmo assim, expliquei que certas ideias não podem desaparecer sem deixar rastros, são essas que precisam permanecer. E talvez seja justamente por isso que eu escrevo.
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